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Momento fanfic.


Para retomar um funcionamento normal no blog, eu resolvi postar uma coisinha sem importância que escrevi recentemente. É, na realidade, uma fanfic de Harry Potter, completamente fora de contexto. Fiz este personagem para um fórum, e até que o achei interessante (penso em aproveitá-lo para alguma história realmente minha). Espero que gostem da história dele.

Prólogo de George Harrison Karev


Quando Victor Karev conheceu-a, ele não fazia idéia de quais seriam as conseqüências daquele encontro em sua vida. Os cabelos ruivos que formavam cachos discretos foram irresistíveis, e os olhos azuis, semi-fechados, olhando-o de baixo com um sorriso encantador, hipnotizaram-no de pronto. Katherine Harrison tinha o sotaque escocês carregado, e orgulhava-se como uma menininha de seu pedaço da ilha da Grã-bretanha. Era uma “Curandeira” e havia sido transferida para Bulgária há pouquissímo tempo. Jovem, doce, sonhadora, com aquele jeito de falar meigo, mas que nem por isso se mostrava fraco. Foi irresistível, até mesmo para um Karev.

Depois de seis meses de namoro informal, eles se casaram, sem realmente conhecerem um ao outro. A lua de mel foi mais curta do que ele queria, mas ela se justificou sem medo algum “É o meu trabalho. Não importa o que diga, é aquilo que eu escolhi para a minha vida. Não vou largá-lo, Vic. Sabia disso desde o começo, não se faça de desentendido.”.

De fato, ele sabia, mas pensou que, como tantas outras senhoras Karev antes dela, abriria mão de seus desejos pessoais pela família.

Depois de um ano juntos, Katherine sentiu algo se formar dentro dela. Uma vida surgiu e se desenvolveu, e, após quase nove meses, a Sra. Katherine Harrison Karev trouxe ao mundo um pedacinho de gente, com dedos fráfeis e olhos fechados. Victor se apaixonou pela criança sem sequer pestanejar, as mãozinhas, que se tornaram rechonchudas depois que ele teve acesso ao leite materno, eram alvo de sua adoração. Diariamente o pai se sentava ao lado de sua esposa, vendo-a amamentá-lo, e fazia verdadeiros monólogos a respeito de suas ambições para o futuro do bebê. “Ele será um grande jogador de Quidditch, você vai ver! Sei que será, tem o físico de um apanhador! Leve e veloz, atento como eu era”. Katherine sorria, aquele riso materno que não precisaria de muito para se tornar uma gostosa e relaxante risada.

Quando George foi batizada, um ano e meio depois de seu nascimento, Victor exigiu que este evento se tornasse uma festa. Chamou seus irmãos, seus pais, primos, sobrinhos, tios, e algumas outras pessoas mais. Todos de alto nível social, todos puro-sangue, todos dignos de acordo com ele. Quando ele perguntou quem Katherine gostaria de chamar, ela sorriu timidamente “Apenas os meus pais”. A expressão de Victor foi de uma leve tristeza. Ele se aproximou da mulher, ajoelhando ao seu lado e segurando sua mão com carinho. “Sinto muito que não se dê muito bem com a sua família, Kate”. As sobrancelhas dela se ergueram, surpresa, mas logo a expressão se desmanchou em regojizo. “Oh, não, Vic, não se preocupe! Eu me dou muito bem com a minha família, longe de termos um relacionamento complicado. É que apenas os meus pais sabem, entende? Não poderia chamar os outros com toda a sua família aqui”. Desta vez, foi ele que mostrou um expressão de dúvida. “Apenas seus pais sabem de que...?”

“Ora essa” ela puxou a mão que ele segurava, para ajeitar George em seu colo “Apenas eles sabem que eu sou uma bruxa, Vic”.

Foi necessária meio minuto para que Victor Karev deixasse aquela informação se espalhar por seu cérebro e adquirir o nível de completo entendimento. O homem ergueu-se vagarosamente, observando a mulher que amamentava a criança. Sua mulher. Seu filho. Os passos foram duros enquanto ele se retirava no recinto sem deixar de observá-los até que atingisse o exterior do quarto. No corredor, ele virou as costas e quase correu para o escritório, fechando a porta com força e trancado-a imediatamente.

Uma onda de calor e gelo subia por suas entranhas, o coração palpitando assustado e as mãos trêmulas. Aquilo não podia ser verdade. De maneira alguma, afinal, ele era um Karev. Um Karev! Um representante de uma das mais antigas e tradicionais famílias de bruxos da Europa!

Com as mãos na cabeça, puxando os cabelos ou pressionando seu crânio, ele deu voltas. Voltas em torno de si, em torno da mesa, em torno de todo o aposento. Derrubou o que havia sobre sua mesa, incluindo uma foto na qual ele estava com George no colo, sentado na poltrona da sala, Katherine estava em pé ao seu lado com uma expressão de orgulho indisfarçável. Os livros que estavam na estante foram levados a baixo, e tudo que fosse quebrável estilhaçou no chão de madeira nobre.

“Victor” chamou a voz de Katherine, do outro lado da porta. “Vic, querido, o que foi?”. Ele encarou a estrutura de madeira que separava ele daquelas...coisas. A maçaneta girou e ela tentou abrir a porta, mas falhou, afinal esta estava trancada. “Vic, porque esta trancada? Esta passando mal? Quer que eu traga alguma coisa?”. Os olhos castanhos varreram o escritório, registrando tudo que estava caído, tudo que estava quebrado. Salvo a cadeira, a mesa e a própria estante, todo resto havia vindo abaixo. E aquilo o deixou extremamente irado.

Havia destruído suas coisas graças ao ódio, mas não eram aquelas coisas que deviam ser quebradas. E sim as que estavam atrás da porta, falando como se fossem pessoas de verdade. Eram animais, e pertenciam a ele, e haviam sido desobedientes. Mentirosos e sujos, enganando-o. E eles deveriam ser castigados.

A varinha não estava com ele, mas havia uma forma de começar o castigo, antes de ir até o seu quarto e pegá-la. Com passos ponderados, assustadoramente calmos, ele foi até a porta. Girou a chave duas vezes e a maçaneta, abrindo a porta e fazendo-a empurrar os destroços de alguns objetos estilhaçados contra ela. Katherine estava em pé há dois passos dele, os cabelos ruivos presos em uma trança que descia pelo ombro esquerdo. Sua pele branca tinha sombras criadas pela luminosidade do corredor, mas os lábios estavam naturalmente rosados, como sempre foram. Em seus braços finos estava George, a cabeça recostada em seu peito direito, as mãozinhas agarradas à roupa da mãe. Os olhos azuis e cristalinos estavam preocupados, as sobrancelhas arqueadas em angústia.

“Você estava bem? O que aconteceu? Oh, por Merlin, Victor! O que houve com o seu escritório?”. Ele não se importou em responder essas perguntas. Com a mão fechada, desferiu um soco sem piedade no rosto da mulher, cortando suas perguntas. O choque foi forte, como se supõe, e ela ficou praticamente em choque. Recuou um passo, os olhos arregalados e os braços agarrando com força George, que se assustou e começou a chorar. “Faça esse animal calar a boca” ele exigiu, recebendo como resposta o olhar incrédula da ex-senhorita Harrison. “Faça esse animal parar de chorar!” berrou. “O que...” ela começou, mas um tapa vindo dele cortou sua frase. O choro de George aumentou. “Eu mandei fazê-lo se calar!!!”.

Katherine começou a recuar, assustada, o filho grudado junto ao peito. Aquilo o irritou ainda mais. Como aquela vaca se atrevia a não obedecê-lo? Ela e aquele animal que carregava nas patas! Adiantou-se até a mulher, segurando seus pulsos com força, tentando arrancar a criança das mãos dela. Katherine berrou, exigindo que ele a largasse, mas sendo completamente ignorada. Embriagada pelo pânico, ela o mordeu com toda a força que tinha, arrancando sangue de uma das mãos do marido, que a soltou imediatamente, devido a dor. Com os pés calçados em sapatos de tecido para ficar em casa, ela correu para o quarto de George e se trancou lá dentro com ele. Trêmula e assustada, colocou-o no berço, tentando fazê-lo parar de chorar. Estava apavorada, e por isso incapaz de continuar carregado-o.

Não demorou para que Karev pegasse a varinha no quarto do casal e destrancasse a porta com um feitiço, marchando para dentro do quarto com papel de parede azul no qual fadas se moviam por todos os lados. Não fadas mordentes, mas aquelas belas e encantadoras, como as de Peter Pan. Ela virou as costas para o berço, enchendo o peito de ar em uma tentativa de se manter calma diante daquele homem, que não era mais seu marido.

“Não deveria me olhar nos olhos” ele disse, com nojo, apontando a varinha para ela “Deveria estar no chão, como uma cadela.”.

“Meça suas palavras, Victor Karev” por mais que tentasse se mostrar segura, sua voz estava vacilante, e lágrimas começavam a surgir no fundo dos seus olhos.

“Não fale comigo! Animais não falam com seus donos!” antes que ela pudesse argumentar, uma palavra foi cuspida em sua cara e tudo que ela conseguiu fazer foi berrar.

CRUCIATUS!!!” ele disse, cortando a noite e o coração de Katherine. Ela caiu no chão, a dor esmagando seus ossos e órgãos, os gritos se elevando no ar e subindo o máximo que podiam, sem espaço para respirar ou pensar.


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George abriu os olhos, o peito magro subindo e descendo em arfadas curtas demais. O suor escorria por trás dos cabelos castanhos, e ele sentiu a mão gelada. Em seus ouvidos ainda ecoava o berro de sua mãe, se tornando cada vez mais distante. Com dificuldade, ele controlou sua respiração, acalmando os murros que o coração dava no peito, e silenciando aquele eco angustiante que o despertou. O relógio de ponteiros que estava ao lado de sua cama mostrava 5h30 a.m., e isso fez com que ele torcesse a boca, bufando descontente. Fazia catorze anos desde aquela noite, no entanto aquilo ainda o atormentava muitas e muitas vezes. A psicóloga que sua mãe começou a pagar para George quanto este tinha nove anos disse que é realmente estranho ele conseguir se lembrar de alguma coisa, mas que não é tão raro que situações traumáticas como aquela fiquem marcadas no inconsciente das pessoas, mostrando-se em sonhos.

Todos os outros alunos com os quais dividia o quarto estavam dormindo, mas seu sono havia ido embora. Quando fechava os olhos o grito que ele queria silenciar voltava a ecoar, portanto ele desistiu da idéia de descansar um pouco mais. Ajeitou o travesseiro para ter onde apoiar as costas, pegou uma caixa que estava escondida embaixo de sua cama, e se sentou com ela diante de si. Era uma caixa pintada de vinho a mão, com alguns adesivos de diversos países colados por toda parte. Dentro dela havia todo tipo de coisas. Envelopes abertos com cartas já lidas, albuns de fotografia e algumas soltas, cadernos lotados até a última linha, e outros ainda em branco, papéis de carta prontos para serem usados, uma gaita, um livro muito velho infantil. Naquela caixa estavam suas lembranças, seus segredos. Todas as cartas eram respostas das que havia enviado para sua mãe no últimos cinco anos de escola. Os cadernos estavam cheios de experiências passadas, como diários. Ele havia detestado a idéia de ter que escrevê-los, mas sua psicóloga o orientou a persistir com a idéia, era uma maneira, de acordo com a sra. Charlotte, de registrar seus traumas para poder superá-los. Com as mãos calejadas de praticar o baixo, ele vasculhou os cadernos em busca do que havia começado mais recentemente. Uma pilha de sete se formou ao seu lado antes que ele encontrasse o que queria. Uma caneta de quatro cores, enviada por sua avó materna que achava as penas anti-práticas, estava presa à capa do caderno e era com ele que a letra de George Harrison ganhava forma nas folhas de linhas pretas.

“Mais uma vez, ela me acordou. O grito foi alto, como é sempre, e meus pelos estão arrepiados até agora - apesar de que talvez, neste caso, seja esse frio desgraçado que insiste em fazer nesse fim de mundo. Queria conseguir eliminar essa lembrança da cabeça, a Charlotte é uma maldita quando diz que eu tenho que aprender a lidar com essa lembrança. Honestamente, um feitiço e já era, consigo muitas noites de sono de qualidade! Nem estou pedindo que ela apague todas as lembranças ruins - como auqela vez que ele quebrou o meu braço, ou quando me fez cair escada abaixo, ou quando a mãe se jogou da janela para me pegar no ar quando eu tinha cinco anos - só queria que ESTA fosse apagada! Qual o problema nisso?”. Ele escreveu com a tinta vermelha, pois a preta e a azul haviam acabado, e a última que ele usava, sempre, era a verde. No canto do papel, ele fez um rabisco “P.S.: pedir uma caneta nova”.

Inspirou até suas costelas doerem, e em seguida deixou o ar escapar todo de uma vez. O caderno era relativamente novo, e as folhas ainda não estavam grossas e escurecidas dos lados, diferente dos outros sete que o encaravam saudosos. Ainda faltava um tempo até o momento em que eles realmente deveriam despertar para se trocar e ir tomar o café da manhã. Como fazia diversas vezes, ele pegou um dos cadernos e o abriu em uma página qualquer. Pegou o primeiro caderno que escreveu, passando os olhos pelas palavras que havia escrito quando tinha apenas nove invernos.

“A Charlotte me mandou escrever minhas lembranças. Eu achei isso muito zuado, é coisa de menina esse papo de diário. Sem contar que não tá acontecendo nada na minha vida agora, então sobre o que eu vou falar? Sei lá, sabe, não sei se quero escrever alguma coisa. Paresse tão esquisito” George balançou a cabeça quando leu o erro que havia cometido, incapaz de se conter ele rabiscou em cima “Parece, seu animal! É com ‘c’!”. “O Victor não vai aparecer mais, não depois do que aconteceu há dois meses. Tipo, eles sempre souberam que eu era bruxo -a mãe e o pai são, não tinha dúvidas- e eu ja tinha feito umas magias -tipo explodir o milho em pipoca sem fogo, o que é muito legal! Ou tocar o piano sem as mãos...- mas nunca tinha usado contra ninguém -tá, vai, mentira, eu já tinha usado pra calar a boca da professora-, só que dessa vez foi nele! Foi de noite, quando a mãe chegou do trabalho. Ele já tinha chegado há algumas horas, e eu tava meio que escondido debaixo da escada. Ele ficou muito p da vida com ela, mais do que o normal. Achou um absurdo ela voltar tão tarde, e começou a xingá-la. E a bater nela, e a mãe tentava se defender, mas, tipo, ele é homem e é bem mais forte. E eu fiquei MUITO irritado com ele. Foi meio sem querer, sabe, mas eu revoltei a casa contra ele. É! A casa! Tipo Carrie, A Estranha! O tapete e as cortinas prenderam ele, a mesa bateu nele, a lareira se acendeu só pra queimar ele. Foi muito da hora! Mas a mãe me fez parar, e ele ficou muito assustado. Bem feito, praquele fdp, pra parar de mexer com a minha mãe! Foi depois disso que eles se divorciaram e eu me mudei. Tô na Escócia agora, que é muito legal! Chove o tempo todo, e é frio, mas é melhor que a Bulgária. A mãe ta mais feliz e eu consigo durmir de noite. Ta, às vezes eu tenho uns pesadelos, mas a mãe me abraça e canta alguma música, ou me conta uma história, preu voltar a dormir.”

George fechou encarou a página, com um sorriso de certo orgulho. Claro, ele escrevia extremamente mal, com erros de gramática que agora o deixavam completamente assustado, mas a questão não era como estava escrito, e sim o que. A lembrança dele conseguindo praticamente expulsar Karev de casa era uma das quais ele mais se orgulhava, pois, no dia em que ele a Katherine conseguiram se livrar daquele monstro, que havia ameaçado-a tantas vezes caso ela tentasse escapar, ela mostrou um sorriso tão verdadeiro e vibrante, que George se sentiu igualmente feliz.

Mudando de caderno, ele encontrou uma lembrança escrita em vermelho, sozinha no meio de tudo aquilo. Houve uma época que lembranças em vermelho eram lembranças raivosas.

“Filhosdamãecanalhasdemerdaseusmalditos! Eu NÃO quero ir pra DURMSTRANG! Não me importa se Hogwarts não me enviou uma carta, não me importa que eu seja búlgaro! EU NÃO QUERO! Todo mundo sabe que se você der bons motivos, Hogwarts te aceita. Eu tenho um PUTA bom motivo pra não ir pra aquela porcaria!! Eu não quero cursar a mesma droga de escola que aquele canalha!”.

Aquela foi a primeira, e talvez única, briga que George e Katherine tiveram. Ele tinha onze anos e deveria ir para a Escola de Magia e Bruxaria Búlgara Durmstrang, que era exatamente o oposto do que ele queria. Graças as atitudes de Victor Karev, George, que respondia apenas como Harrison, havia criado uma ojeriza a tudo que vinha da Bulgária, especialmente qualquer coisa que fosse mais fortemente vinculada ao pai. Óbviamente, a escola era um dos principais alvos dessa repugnância. No final, não houve jeito, ele foi enviado para Durmstrang contra sua vontade, e agora não era exatamente um dos garotos populares do colégio. Sempre que possível, George voltava para casa, e não tinha lá muitos amigos. Ao contrário. A maior parte das pessoas que o conheciam o detestavam As garotas o olhavam com superioridade, e os garotos muitas vezes terminavam em brigas sérias com ele, o que levava-os a detenção, claro que a de George era sempre mais longa e pesada, já que ele era a causa de todos os conflitos. Ele e seu pavio curto.

Quando ele ouviu um dos seus vizinhos de cama começar a acordar, ele agarrou os cadernos e os jogou para dentro da caixa, fechando-a e colocando-a de volta embaixo da cama. Colocou os uniformes da escola, um pouco destituídos de sua aparência original, a gravata solta e a camisa para fora, e saiu do quarto, deixando os outros rapazes um pouco mais satisfeitos. Ele se sentava sozinho em um canto da mesa, sem se preocupar com o espaço que as pessoas deixavam vazio entre elas e ele, era melhor, popuava-lhe os nervos. Quando a coruja chegou com uma carta escrita em pergaminho, George sentiu que estava algo errado. A letra era a da sua mãe, caso ela estivesse com tanto frio que tremesse, mas fora escrita à pena, e isso não era costume da Srta. Harrison. A boca dele secou, os lábios se grudaram e a mandíbula tremeu. Ele PRECISAVA ir para casa.

Era a primeira vez que pediria algo para o diretor -não que tivesse muitos créditos com ele- e teria se ajoelhado e beijado seus pés jurando coisas que jamais cumpriria para que ele pudesse voltar para casa. Explicou que a mãe estava doente e que ele se comportaria por muitas e muitas semanas, que faria as tarefas dos dias que precisasse faltar, mas que ele realmente tinha a necessidade de voltar. A perspectiva de tê-lo ausente por um tempo, e a promessa de paz durante alumas várias semanas após seu retorno fizeram com que o diretor o liberasse por uma semana.

Mas George se ausentou por sete.

Quando chegou em casa, Victor estava lá e Katherine estava praticamente morimbunda. Machucada e vítima de diversas maldições, a visão despertou em George um desejo de vingança descontrolável e inútil. Atacou o adulto, ou melhor, tentou, e foi facilmente rechaçado. E amaldiçoado, como Katherine antes dele. O que os impediu de virem a falecer naquele dia é um mistério, ou um milagre. Mesmo submetendo-os a uma dor imensa, capaz de levá-los a loucura, Victor não os matou. Abandonou-os em casa, sangrando e desfalecidos, mas não os matou. Katherine foi a primeira a acordar, e contatou o hospital bruxo em que trabalhava, um parceiro escocês do St. Mungus. George ficou inconsciente por três semanas, mas precisou de outras quatro para terminar de se recuperar, física e psicologicamente. Naquele ano George destruiu sua Firebolt De Luxe e falhou em todas as provas, repetindo de ano. Ele já tinha o costume de furmar um cigarro ou outro desde os doze, mas foi naquele ano que se tornou um viciado, destruindo todos os dias pelo menos um maço de Lucky Strike Black, que conseguia comprar em caixas. No ano seguinte, quando teve que cursar o quinto ano uma vez mais, ele conseguiu muito mais detenções que o normal. Também melhorou muito a qualidade de sua música. Começara com o piano quando ainda era bem novo, mas agora tocava também a gaita, o violino, a guitarra, a flauta transversal e, melhor do que todos estes, o baixo. Estava mais recluso e mais explosivo, e não fazia questão de mudar isso.

Até hoje desperta algumas vezes com os gritos de sua mãe naquela noite crua de sua infância. Mas a maior parte das noites o que o faz acordar são os olhos dele, emoldurados pelos gritos dos Harrison.




Sei que é um post meio perdido, mas conforme recupero o ritmo, também o fazem os posts, espero que me perdoem por isso. Mostrem sua presença comentários por favor.

-Nínive Leikis.




A verdade é que eu tinha um plano de férias para o blog: iria postar duas ou três vezes por semana, falando dos filmes que eu assisti, postando pequenos contos, besteiras à toa, detalhes desinteressantes enfeitados por palavras barrocas e fotografias. Este era meu plano, pois eu costumo gastar as minhas férias com esta pequena rotina de "jovem idosa" (lendo livros, saindo para o cinema com os meus amigos, gastando horas à fio em conversa fiada em um café...). No entanto, para minha sincera surpresa (e decepção de meus leitores, eu suponho) estas férias foram atípica para mim, e comuns para os demais jovens de 18 anos.
Fui em uma balada, sai vezes demais para beber. Mal fiquei em casa nos últimos tempos, estou sempre na rua passeando com meus amigos (que incluem uma intercambista alemã extremamente simpática), o que acabou devorando o horário que deveria ser destinado ao blog. E por isso não sei se estou chateada ou contente. Por um lado, meu blog esta abandonado às traças, desatualizado e triste (emo! -q). Por outro, eu estou extremamente ativa em uma vida social considerada um pouco mais saudável pela maior parte das pessoas, e isso tem sido bastante divertido.
Portanto, cheguei à uma conclusão: toda alegria vem com uma pequena dose de dor. Ou toda pequena dose de alegria vem com dor... As proporções variam.
E, para o bem da saúde e da rotina, as férias estão chegando ao fim. E neste ano de vestibular isso significa que estou colocando meus estudos em dia, organizando minha agenda e retornando, cuidadosamente, à uma rotina mais admirável e responsável. O que isso significa? Bem, significa que volto a postar por aqui com uma freqüência mais aceitável!

Termino este post sem nada demais, sem fotos, ou textos, ou coisas do gênero, pois parece algo demasiadamente grande (ou será que estou sendo uma chata?). Mas logo logo apareço com alguma coisa, já esta marcado na agenda (risos).



-Nínive Leikis

Carta para um velho amigo


Antes que fiquem bravos, eu peço desculpas pela ausência prolongada. Tive uma semana pouco dedicada, e isto é culpa única e exclusivamente minha. Estava sem idéias e sem inspiração para escrever (em compensação, tirei várias fotos, se estiverem interessados acessem o www.nih-chan.devianart.com ). Voltei com um pequeno conto, e aviso que já tenho os demais posts para essa semana planejados, portanto, não se preocupem, não haverá uma espera desmedida como houve desta vez.

Agora, antes que vocês possam avançar para este texto escrito em um bloquinho sem linhas enquanto ajudava a minha mãe a fazer supermercado (podem imaginar o quanto ela adora a minha companhia para o mercado. Ela fica sozinha perambulando e eu só sirvo para riscar as coisas da lista, já que sempre que vou ajudá-la nas compras me dá i

nspiração), preciso conferir uma coisa. Algumas pessoas que liam o antigo blog estão reclamando (nos comentários, no msn, no twitter) que eu parei de postar a história do outro blog (Desventuras de Tardes Tediosas). Estou planejando voltar a postar, mas antes gostaria de oferecer uma forma mais organizada para os novos leitores se atualizarem na história, se alguém tiver alguma sugestão de como eu posso fazer isso, ficaria extremamente agradecida.

Terminado isto deixo vocês com uma carta de uma mulher para um antigo amigo. (A foto do conto é da minha autoria. O que acharam?)


Prezado amigo Balanço,


Sei que faz muito tempo que não nos vemos, e por isso lhe dou toda razão caso guarde apenas amargura pela minha pessoa. Não faz mal, mas quero que saiba que, da minha parte, existem apenas bons sentimentos entre nós.

Imagino o quão surpreso esta por receber esta carta tão de repente, mas aviso que o “de repente” se aplica apenas à você que vive ai sozinho e isolado dos demais, fechado em sua praça. Antes de mais nada, acho importante relatar um pouco sobre mim, afinal faz anos que não nos falamos, e considero você um bom amigo.

Ainda tenho praticamente a mesma altura que da última vez que nos encontramos, cresci apenas tries centímetros, mesmo que tenham se passado dez anos desde a última vez que meus tênis ficaram cheios com a areia fina sobre a qual você vive. Meu cabelo esta curto, um pouco acima dos ombros; sei que gostava dos cabelos compridos (presos em rabos de cavalo altos, ou soltos fazendo bonitas sombras quando eu balançava alto em dias de sol), mas minhas novas responsabilidades exigiram esse tipo de posicionamento prático.

Lembra-se daquele rapaz pelo qual eu estava chorando naquele último final de tarde juntos? Bem, não o vejo há vários anos; no entanto, o jovem que se sentou em seu vizinho e me fez companhia até as lágrimas secarem (lembra quem é? Ele sempre me empurrava bem alto, até eu parar de chorar e começar a rir de nervosismo) se tornou meu companheiro de toda a vida. Não concordo com o gosto dele para toalhas, mas isso é remediável.

E a faculdade, você deve estar se questionando. Bem, foi incrível, tudo o que me diziam que seria, e mais. Claro, dormi pouquíssimo (entre trabalhos, aulas e baladas faltou tempo para algo tão rotineiro como descansar), mas não veijo mal nisso. Devo ter rido mais do que em toda a minha vida junta. Mas, não, não fiz a faculdade que meu pai havia escolhido. Desisti da idéia de um curso seguro e me formei em gastronomia. Você pode imaginar a expressão dos meus pais quando lhes contei isso, e admito que fiquei preocupada por um tempo. Mas tudo bem. Hoje sou dona e chef de um bistrô no bairro dos artistas e, mesmo que sempre tenha uma banda (normalmente uma alternativa) tocando lá, e que as paredes estejam cheias de quadros, nunca gastei um centavo para isto (os artistas procuram restaurantes como o meu, é bom para eles e para mim). Estou realmente feliz.

Suponho que esta conversa deve estar soando estranhíssima aos seus ouvidos, e não é motivo de surpresa para mim, afinal de contas, a última vez que nos vimos eu sequer era uma mulher, minha vida era curta e rasa, assim como eu. Mas agora que estou em pé diante de ti, deixo bem claro que eu mudei. A vida me moldou, e acho que moldou bem; estou profunda e meu interior não “da pé” para uma criança pequena e vários adultos. Esta criaturinha em pé ao meu lado é o fruto mais doce e precioso que a vida e eu tivemos juntas, seu nome é Manuela, mas todos a chamam de Manu, sinta-se à vontade para fazê-lo.

Estou morando com ela e com o rapaz (que hoje é um homem) do qual já lhe falei há três quarteirões daqui, naquela casa térrea sobre a qual lhe falava (com as portas -até mesmo as da garagem- em arco, árvores tortas se ajeitando à entrada e um caminho de pedras até a soleira). Sendo assim, eu e Manu iremos passar a frequentar o parque com certa regularidade, agora que minha pequenina tem idade o suficiente para esse tipo de passeio.

Seja paciente com ela, assim como foi comigo, que tenho certeza que serão bons amigos, como nós.


Beijos da Menina que Cresceu.






Não se esqueçam de deixar seus comentários (críticas, sugestões, e o que mais quiserem)



Nínive Leikis

Nobel de Literatura




“Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto."

- Intermitências da Morte de José Saramago.




Eu tinha planos de postar algo completamente diferente do que estou postando. Pela manhã pensei em um conto que estava arquivado, e imaginei qual era o motivo de aindar não haver postado coisa alguma. Quando cheguei na garagem do emu prédio, determinada à postar o conto antes mesmo de almoçar, recebi uma mensagem no celular anunciando uma notícia devastadora. José Saramago faleceu hoje, neste fatídico dia de 18 de junho de 2010. Sei o quão falso pode soar eu dizer que meu coração deu um salto infeliz e se jogou de um abismo, levando consigo meu chão. Por alguns segundos fiquei parada, o joelho doendo horrívelmente e a mala escorregando pelo ombro inclinado para baixo, encarando a mensagem. Me pareceu uma brincadeira de mal gosto, vinda de alguém que não fazia esse tipo de coisas. “Saramago morreu” anunciei para minha mãe, que eu esperava desmentir o fato. No entanto, ela torceu o nariz, tão desgostosa quanto eu, abaixando a cabeça. “É, eu li na internet hoje de manhã”.

Precisei repetir algumas vezes para mim, sentar na frente do computador ligado e conectado à rede e buscar alguma notícia que me comprovasse ou desmentisse aquilo. Óbviamente, como estou fazendo este post, cheguei à conclusão de que realmente o único Nobel de literatura na língua portuguesa havia falecido. Ainda assim, precisei do dia para decidir se realmente faria alguma notificação do fato no blog.

É algo extremamente triste a partida de uma figura tão importante para o cenário literário internacional, e é claro que me interesso por fazer uma homenagem a ele. Mas a triste verdade é que não conheci Saramago. Mesmo tendo lido seus livros, nunca me sentei para tomar um café com ele e falar sobre o vai e vêm das ondas, o vai e vêm das injustiças, o vai e vêm da vida. Tudo que sei sobre ele sei porque li nas páginas brancas e desprovidas de muita da pontuação que somos obrigados a usar, sequer sabia que esse gênio ganhara seu primeiro livro de um amigo quando ele já tinha seus 18 anos até hoje, quando buscava notícias sobre o falecimento do autor. Não conheci nada sobre Saramago, conheci apenas tudo sobre ele. Conheci o que ele pensava, o que ele via, e como ele contava isso ao mundo. Fora isso, fora sua arte e sua consciência, nunca me interessei por algo mais. E portanto minha homenagem se reduz a um simples conselho: leia José Saramago.

Leia os livros que ele deixou para trás, e que não foram poucos. Leia-os com carinho, concentração e entendimento. Desprenda-se de preconceitos, ignore o que você aprendeu desde a infância, e aceite, nem que somente durante o tempo em que tiver o livro abrto diante de si, o que ele tem a dizer. Se conseguir fazer isso, estará olhando nos olhos dele e, mesmo que o homem não esteja mais entre nós, poderá discutir se quiser, pois ele deixou suas respostas impressas à tinta.



“Retrato do poeta quando jovem”


Há na memória um rio onde navegam

Os barcos da infância, em arcadas

De ramos inquietos que despregam

Sobre as águas as folhas recurvadas.


Há um bater de remos compassado

No silêncio da lisa madrugada,

Ondas brancas se afastam para o lado

Com o rumor da seda amarrotada.


Há um nascer do sol no sítio exato,

À hora que mais conta duma vida,

Um acordar dos olhos e do tacto,

Um ansiar de sede inextinguida.


Há um retrato de água e de quebranto

Que do fundo rompeu desta memória,

E tudo quanto é rio abre no canto

Que conta do retrato a velha história.


de José Saramago.



Meus mais sinceros sentimentos à família de Saramago e uma pitadinha de raiva por ele falecer, afinal, agora não haverá mais coisas novas dele para ler.



Nínive Leikis






José Saramago (1922-2010)


Depois do dia dos namorados




Eu deveria ter aparecido por aqui ontem, afinal de contas, era Dia dos Namorados, aquele dia especial para comprar caixas de chocolate, entradas de cinema, ler posts fofos em blogs sobre casaisinhos, esse tipo de coisas. No entanto, devemos encarar os fatos: eu não sou uma pessoa de datas. E quando eu digo isso, eu quero dizer que não lembraria o aniversário dos meus pais se não houvesse algum lembrete (como o fato do aniversário do meu pai ser no mesmo mês que o meu, e o da minha mãe o mesmo dia em outro mês... -apesar de eu às vezes confundir com junho ou julho.). Sou aquele tipo de pessoa que soltou fogos com a idéia de o orkut nos avisar quando é o aniversário de alguém.

Logo, nada mais justo do que um post pós-dia dos namorados sobre uma pequena desilusão.



Carla e um e-mail



Existem dias especiais que são feriados, e outros que não são. Quando estamos pensando no segundo caso, torcemos desesperadamente para que esse tal dia caia em um final de semana. De preferência, sábado. Desta maneira podemos dormir até a hora que quisermos, sem nos preocupar se vamos ou não aproveitar o dia, pois também podemos dormir na hora que preferirmos. Tais encantadores pensamentos estavam nublados na mente de Carla quando ela mudou de posição embaixo das cobertas, despertando sem querer. Durante alguns segundos ela continuou ali, quieta, encolhida no quentinho da noite que na verdade já havia acabado há um bom tempo.

O celular apitou, avisando que havia uma mensagem não lida, e ela gemeu solitáriamente ao pensar que teria que abrir os olhos, levantar-se e sair do quentinho(!) para ir pegar o maldito celular que havia descarregado no outro dia. Resistiu ao instinto de saber quem estaria lhe mandando mensagens em um sábado de manhã, e permaneceu na cama, fingindo para si própria que ainda estava dormindo. Quando o celular apitou uma segunda vez, o ar quente escapou rápido de seus pulmões, atravessando seus lábios em uma bufada impaciente.

Abriu os olhos, encarando o escuro não tão profundo em que se encontrava. A luz do sol passava com dificuldade pelas frestas das persianas, lavando o quarto com uma penumbra simpática que a convidava a tentar continuar ali, os pés vestidos em meias enrolados na borda da coberta de lã. Fechou os olhos uma vez mais, um sorriso cálido nos lábios rosa pastel, tentando retornar ao mundo de inconsciência em que mergulhamos durante o sono, mas, uma vez mais, o celular apitou, dando-lhe um tapa na cara quando estava para saltar do abismo.

Respirando profundamente, ela empurrou as cobertas com carinho para longe, e rastejou para fora da cama, caminhando com passos pouco apressados até o celular. Agachou-se, desconectando este no carregador, e caminhou de volta para a cama, enquanto abria-o para ler a mensagem. Quando se sentou na cama, e estreitou os olhos para conseguir ler o que as letras pretas no fundo branco diziam uma fúria desigual surgiu nos olhos castanhos emoldurados por olheiras.

-Propaganda... - ela murmurou em um sibilo venenoso - Quem manda uma maldita propaganda na manhã do dia dos namorados?

Ela fechou o celular, irritada, vendo a hora exposta no visor externo. 13h27. Esta bem, não era manhã, mas ainda assim, era sábado de dia dos namorados. Quem acorda em um sábado antes das 14 horas?

Carla até pensou em voltar a se deitar, mas sabia que não adiantaria nada. Já havia acordado, e nada, naquele instante, seria capaz de fazê-la se deitar e realmente dormir novamente. Jogou os cabelos ainda úmidos do banho que havia tomado antes de dormir para trás, tomando coragem para se levantar, colocar um casaco por cima da blusa de mangas compridas que havia usado para dormir, calçar os pés naqueles chinelos de avós para andar em casa durante os dias frios.

Quando saiu do quarto notou que havia sido a última pessoa para acordar, seu pai e seu irmão estavam na sala, assistindo alguma coisa na televisão. Sua mãe estava terminando de colocar a mesa, mas não para o almoço, e sim para o café da manhã. Ela, assim como a filha, estava de pijama.

-Custa colocar um chinelo? - ela exclamou quando o irmão de Carla entrou na cozinha, os pés só em meias e uma regata no peito. -Bom dia, querida.

-Tá mais para “boa tarde”, não acha não? - Rodrigo tinha um sorriso maldoso no rosto, o qual Carla ignorou deliberadamente.

-Ignore ele, Carla, seu irmão acordou há dez minutos.

Rodrigo entortou a boca, olhando irritado para a mãe, que retribuiu com um sorrisinho enervante. Quando o pai se sentou do outro lado da mesa que Carla, sua mãe havia acabado de colocar sua caneca com leite e achocolatado no microondas. Durante o desjejum eles falaram sobre coisas inúteis, e às vezes havia o mais puro silêncio, cortado por bocejos remanescentes. Enquanto a vizinha estava preparando um frango assado com farofa eles estava terminando de comer um pedaço de bolo industrializados, bisnaguinhas e torrada.

A tarde passou de uma maneira monótona, mas confortável. Rodrigo e o pai ficaram na sala assistindo futebol, corrida, cricket, o que quer que fosse. Carla e a mãe se sentaram no quarto e ficaram ali até à meia noite, assistindo a última temporada de um seriado que ambas adoravam. Houveram pausas para o almoço fora de hora, e alguma outra refeição, e, claro, para que Carla fizesse download do próximo episódio. Nesse pequeno espaço de tempo ela corria até a caixa de entrada de seu e-mail, encontrando-a sempre normal, sem nada novo e, a cada vez que verificava o fato, sua boca se entortava um pouco.

Não havia falado com ninguém sobre o mail que estava esperando, e preferiu manter como estava. Se distraia com a série, chorando com ela, rindo com ela, abraçando a mãe enquanto seu pai e seu irmão vibravam com o que quer que fosse na sala.

O último episódio foi doído, sofredor e devagar. Houve perdas, conquistas, mortes e uma dúvida sem resposta. E elas ainda precisariam esperar meio ano para que houvesse a continuação da trama. Quando terminaram eram três horas da manhã, e elas riram quando perceberam o fato. Se despediram, desejando boa noite e bons sonhos. Os dois homens da casa, ou melhor, o garoto e o hoem da casa jea estavam dormindo, e agora as duas mulheres, a senhora e a senhorita, estavam seguindo os mesmos passos.

No silêncio da casa durante a madrugada, ela o fez mais uma vez.

Rapidamente, como quem tira um curativo, ela abriu a caixa de e-mail. A caixa de entrada não apresentava mensagem algum nova. E aquilo fez com que seus olhos se estreitassem, um pouco furiosos.

Com o mouse ela clicou em “Nova mensagem”, digitou um e-mail que sabia de memória, e no assunto colocou “Duas semanas depois”

“Você sabe que perdeu a oportunidade perfeita, não sabe? E você também sabe que era você quem devia estar enviando este mail, não eu.”

Sem pensar duas vezes, ela enviou.

Apagou a luz do teto e se enfiou embaixo das três camadas de tecido grosso, abraçando o travesseiro ortopédico e macio que abraçava sua cabeça todas as noites. Em poucos minutos sua mente saltou do consciente para aquele reino impalpável e esfumaçado de sonhos.






Espero que tenham gostado de Carla, uma jovem adolescente que adora seriados, histórias em quadrinho, whisky e doce de leite. Adoraria saber o que acham da atitude dela. Não sei se a história vai ter continuação, mas pelo menos houve um começo. Comentem antes de sair, e até a próxima!



Nínive Leikis



Minha intenção era ter aparecido por aqui antes do início do feriado, no entanto às vezes as coisas fogem do nosso controle (seja de maneira positiva ou negativa), portanto, me atrasei. Mas estou aqui, não com uma crítica de filme ou livro ou história em quadrinho. E também não é exatamente um conto, mas tem um certo fundo literário, mas eu não sei que estilo de texto é esse. Como ao final desta leitura os pedidos de comentário pareceriam excedentes, peço de forma antecipada que comentem antes de sair.


De acordo com o dicionário Aurélio:

Religião

s.f. Culto rendido à divindade. / Fé; convicções religiosas, crença: a religião transforma o indivíduo. / Doutrina religiosa: religião cristã. / Tendência para crer em um ente supremo. / Acatamento às coisas santas. / Fig. Coisa a que se vota respeito: o trabalho era para ele uma religião.


Para mim, religião é fé.


De acordo com o dicionário Aurélio:

s.f. Fidelidade em honrar seus compromissos, lealdade, garantia: a fé dos tratados. / Confiança em alguém ou em alguma coisa: testemunha digna de fé; ter fé no futuro. / Crença nos dogmas de uma religião; esta mesma religião: ter fé; a propagação da fé. / Crença fervorosa: fé patriótica. / Afirmação, comprovação: em fé do que lhe digo... / Testemunho autêntico que certos funcionários dão por escrito: a fé do tabelião. // Estar de boa fé, estar convencido da verdade do que se diz; estar de má fé, saber muito bem que se diz uma coisa falsa; ter intenção dolosa. //


Para mim, fé é acreditar. Não importa no que.

Você pode acreditar em um Ser maior, e chamá-lo pelo nome que quiser. Pode ser Deus, Alah, Jeová, Olorum, Zeus, Odin, Gaia.

Pode acreditar que não existem intermidários entre você e Ele (ou Ela). Pode crer que existão vários ao lado do Criador, Seus filhos ou Seus escolhidos.

Pode rezar rezas prontas. Pode se ajoelhar voltado para um local específico em horário pré-determinados. Pode acender uma vela, ou fazer diversos tipos de comida, quando precisa pedir auxílio ou agradecer algo que Ele (ou Ela, ou Eles ou Elas) lhe deram.

Pode se guiar por palavras escritas em um livro. Pode interpretá-las sozinho, ou acreditar em um líder que o faça por você. Pode acreditar em conhecimentos passados de pai para filho.

Pode também acreditar em nada disto. Pode crer na ciência, e apenas nela. (E, acredite, isto também é fé.)

Não importa qual destas fés, qual desta religiões, você segue, e nem o que as pessoas pensam a respeito dela. Não importa os preconceitos voltados para ela, ou as calúnias inflingidas pela ignorância. Pelo medo. Não será a sua fé que determinará quem você é, e tampouco como você é. Não é a religião que cria pessoas boas ou más. Justas ou injustas. Morais ou imorais. Verdadeiras ou mentirosas.

São as pessoas. Você pode seguir uma fé convencional e ir à missa todo domingo e ser um canalha de segunda à domingo até as seis da tarde e depois das oito. Você pode matar uma galinha, que pelo menos foi criada em cativeiro e teve uma vida normal, oferecê-la para uma entidade de nome estranho e ser um bom pai de família, participativo, caloroso, com problemas para pagar algumas contas e ainda assim com força para sorrir aos filhos pequenos que não precisam saber destes problemas. Você pode crer naquilo que fizer seu coração se aquecer e ser a pessoas que você consegue ser.

Portanto, louve quem quiser. As coisas serão as mesmas entre nós.




Nínive Leikis.

Desta vez é cinema


Da última vez que estive aqui lhes apresentei a minha opinião à respeito de um livro nacional extraodirnário, Filhos de Galagah de Leandro Reis @Radrak. Hoje eu trago até vocês uma indicação cinematográfica (que não é nacional, mas pelo menos não é lá muito convencional).




Senhores do Crime (Eastern Promises)


Sinopse:


Anna (Naomi Watts) é uma parteira que trabalha em um hospital de Londres. Um dia ela testemunha a morte de uma jovem, durante um parto realizado em pleno Natal. Ela decide dar a notícia de seu falecimento pessoalmente, o que a faz pesquisar sobre sua identidade e família. A busca acaba colocando-a em contato com o lucrativo tráfico do sexo, comandado por uma organização criminosa da Rússia. Logo Anna conhece Nikolai (Viggo Mortensen), um homem violento e misterioso que é mais do que aparenta


E o que eu penso sobre tudo isso...


Normalmente quando queremos ver um bom filme sobre a máfia, com diálogos profundos, fotografia incomparável, personagens profundas e situações realistas vamos atrás de “O Poderoso Chefão”, de Francis Coppola. Eu já fiz isso várias e várias vezes, e admito que, depois que vi os filmes pela quinta vez, e pensei friamente, percebi como o filme inspirado no livro de Mario Puzo pode ter seus toques de realidade, mas também há uma visão bem romântica de algo nada simpático, que é a super organização criminosa chamada de máfia.

Sem que eu procurasse tomei conhecimento de um filme com o ator Viggo Mortensen cuja base da trama era a máfia russa. Idéia boa, trailer interessante e um ator gato. Corri atrás de assistir o filme e o que encontrei foi algo que tirou as palavras da minha boca e da ponta dos meus dedos durante um certo intervalo de tempo. Admito que quando vi um homem tão lindo no elenco imaginei que explorariam isso ao máximo, como sempre fazem, ao ponto de desfavorecer o roteiro, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: ignoraram categóricamente o fato do homem ser o Aragorn de Senhor dos Anéis e criaram uma obra prima.

A princípio temos a nítida e clara sensação de que a história seguiria Anna Ivanovna (Naomi Watts). Ela é uma obstetra londrina descendente de russos que, no começo do filme, trás ao mundo uma menininha que ela batizara de Cristina, mas vê a mãe da criança, Tatiana, uma jovem de não mais que 14 anos, perecer na mesa de cirurgia. Com o diário da falecida em mãos, Anna pretende encontrar a família dela e garantir um futuro para Cristina. Só existe um pequeno problema: o diário esta em russo.

Inicialmente Anna pede ao tio Stepan que traduza o diário, mas o homem, revolto, velho e um pouco ignorante, se recusa. Ivanovna, vendo-se sem outro opção, procura quem possa ajudá-la e termina conhecendo o dono de um restaurante russo, que é também o chefe do clã davory v zakone, e o seu motorista, Nikolai (Viggo Mortensen).

A partir deste ponto precisa-se ter uma rapidez de pensamento para transferir seu foco para o russo, desviando da jovem carismática e benevolente. A verdade é que a busca pelo destino da jovem Cristina é um subtrama. O verdadeiro centro da história são os acontecimentos, e os objetivos duvidosos, da personagem de Viggo Mortensen. Se não conseguir mudar o foco, se perderá na trama, e será bem difícil alcançar a beleza de significados embutidos no filme.

Longe de ser um blockbuster, podemos chamá-lo até mesmo de cult, e, como todo filme dessa categoria, não é algo que se indica para todos. Indico-o apenas para àqueles dispostos a ver filmes não apenas para se distrair, entreter-se; esse é o típico filme do cinema pensante, e eu o indico para aqueles que estão dispostos à ver um filme com essa intenção.

Sensacional e até mesmo belo, Senhores do Crime é um novo clássico sobre máfia.




Espero que tenham gostado da crítica, mas mais ainda espero vejam o filme, não só porque vale muito à pena, mas porque também é ótimo tirar as próprias conclusões. Assistam e me contem o que acharam.


Lenços ao vento no porto, e até a próxima



Nínive Leikis.


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